Vamos pensar um pouco sobre o conhecimento, usamos tanto o conhecimento para fazer tantas coisas, mas geralmente não se tem conhecimento do gerador do conhecimento.
Kant dizia que todos nossos conhecimentos começam com a experiência, e isso parece ser assim, pois quando nascemos não temos nenhum conhecimento e pela excitação dos sentidos nossa inteligência vai criando ligações entre essas experiências o que acabam gerando certo conhecimento, e depois esses mesmos conhecimentos irão gerar novos conhecimentos, nossa razão irá analisar, nossa inteligência irá achar padrões, e dessa forma chegamos a ter um nível razoavelmente bom de conhecimento do que nos acerca, pelo menos o suficiente para podermos interagir com o mundo extraindo dele nossa sobrevivência.
Até ai parece muito simples, mas não para por ai, existem conhecimentos que parecem surgir sem a interferência das experiências ou da razão, como um gato, por exemplo, mesmo sem nenhuma experiência, sem o exemplo de outros da mesma espécie, a certa idade, parece aprender a cavar um buraco para fazer suas necessidades e cobrir tudo depois. Será que esse comportamento, porem, é realmente um conhecimento desse animal? Me parece que ele não fazem isso com uma razão, mas sim por uma tendência genética, pode ser que na evolução dessa espécie, os animais que cobriam seus rastros tinham mais chance de se esconder de predadores o que resultou na fixação desse comportamento.
Isso, analogamente, nos faz pensar que existam parâmetros nos humanos que precedem o conhecimento, como um formulário pré estabelecido para receber as experiências e o que fazer com elas, precedem a inteligência e a razão, essa seria uma dificuldade para a compreensão do conhecimento do conhecimento, pois esse conhecimento não se enquadraria nesse formulário, nossa mente por si só, não teria material para chegar a essa conclusão, poderíamos deduzir algumas coisas, mas não teríamos real compreensão desse mecanismo.
Como pesquisador da inteligência artificial, tenho visto muitas tentativas de aplicar o conhecimento dos mecanismos/funções do cérebro, ou seja, da parte física da mente para o desenvolvimento de sistemas inteligentes, com algum resultado, mas nada o que poderíamos chamar de inteligência “forte”, isso porque esses sistemas carecem justamente do moldes da mente humana, replica-se o computador, tem-se idéia do programas, mas não se conhece o sistema operacional.
Assim, a razão realmente não seria capaz ter os juízos necessários para recriar o sistema para processar a ela mesma, então como poderíamos chegar compreender esse sistema? Pra mim seria na tentativa e erro, em modelos evolução virtuais, criamos uma natureza, replicamos suas forças o máximo que pudermos e testamos para buscar esses moldes, depois de descobertos, ai sim poderíamos estudá-los, isso seria algo muito revelador sobre nossa natureza, a natureza da mente.
Não quero dizer que filosoficamente não podemos chegar ali, mas tenho essa inclinação, pois nossa mente parece ser incapaz de conceber aquilo que ela não foi desenvolvida para conceber. Como, por exemplo, pensar em algo sem dimensão no espaço/tempo, se pensarmos em algo, esse algo será nulo, mas como saberemos, se não temos como comparar, se nossa mente pensou corretamente? Apenas pensou no inexistente por não ter experiências fora do espaço tempo, e sabemos que essa coisa pode ter uma realidade, como, por exemplo, as partes não manifestadas das dimensões da matéria, teoricamente elas “estão” ali, mas não podemos imaginar como é estar ali. Algumas pessoas se referem a essas coisas fora do tempo/espaço como um sentimento ou pensamento, mas isso não é verdade, pois sem o tempo não há pensamento ou sentimento, embora eles pareçam não ocupar espaço, eles necessariamente ocupam, pois não se pode separar algo do tempo e seu espaço, mesmo que seja algo imaterial, se a mente que pensa a idéia não tivesse seu espaço e ocupasse certo tempo a idéia não estaria ali, se nenhuma mente se ocupasse com essa idéia ela seria inexistente.
Porem se fizermos algo virtual, onde possamos rodar uma mente semelhante à humana, então poderemos pelo menos perceber os seus moldes, perceber onde se dá o sentimento, o que é esse fluxo de percepções e reflexões que chamamos de EU. Seria como poder ter controle do espaço e do tempo desse ser virtual, pois nós teríamos colocado novas dimensões a essa natureza virtual.
Isso seria possível justamente porque teríamos experiência com os moldes, poderíamos paralisar o programa e analisar todo o fluxo de informações e estados dos dados em cada momento do surgimento de um pensamento e como ele utilizou e atualizou seus conhecimentos.
Falando assim parece simples, mas cadê o programa inicial, aquele que irá evoluir sem que tenhamos dado a ele o como evoluir, se dermos o como ele só irá evoluir segundo nossos moldes e não chegará a desenvolver os próprios moldes, como desenvolver esse programa onde a o programador precisaria apenas fazer nada? Teríamos apenas que dar poder ao programa para que se programasse a si mesmo, a partir das funções mais básicas, e um meio para que ele pudesse se desenvolver e interagir com as outras versões do programa. Se isso levaria a criação de um molde inteligente? Pode ser que sim, pode ser que apenas gerassem vírus ou programas nulos, mas acho que vale a pena o experimento, se não pela descoberta, pelo divertimento.
Claro que essa não é a única forma de conhecer sobre o tema, outras áreas da ciência e filosofia também podem chegar a conclusões contendo verdades, mas até que se tenha como experimentar, teremos que nos contentar em viajar na maionese.
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