Este trabalho apresenta algumas questões sobre o conceito de morte de Epicuro, não se pretende argumentar que o conceito esteja errado por completo, mas que existem pequenos exageros como os que trataremos a seguir, depois da leitura do trecho da carta sobre a felicidade (a Meneceu)..
Acostuma- te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.
Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver.É tolo portanto quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento, mas porque o aflige a própria espera: aquilo que não nos perturba quando presente não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado.
Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida.
O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não-viver não é um mal.
Epicuro julgava que devemos viver o presente, dessa forma não via a morte como algo que pudesse alcançar qualquer pessoa, e por isso ninguém deveria temer a morte, o que seria uma aflição da espera da mesma. Para ele quando a morte chega, já não estamos mais lá, dessa forma a morte não é um mal, pois ela não te causa nenhum sofrimento, e sim nós mesmos nos causamos esse sofrimento temendo irracionalmente a morte.
Porem é exagero filosófico da parte dele, pois se seguíssemos exatamente o que sua filosofia pretende mostrar poderíamos saltar de um penhasco para aproveitar a sensação da queda, sem nos preocupar com a morte eminente, pois quando chegássemos ao chão, não estaríamos mais ali, isso não deixa de ser verdade sobre o ponto de vista que estaríamos mortos, mas descarta totalmente os instintos mais profundos dos seres vivos o da sobrevivência.
Todo ser vivo tem um forte instinto de preservação e o medo é um mecanismo de defesa eficiente para evitarmos situações que coloquem em risco nossa continuidade, assim, seria exatamente o contrário, o tolo é aquele que descartaria totalmente os mecanismos de defesa adquiridos por milhões de anos de evolução, achando-se sábio cometeria os erros dos tolos.
Além dessa força biológica que age sobre nos, irracional, mas benéfica, existem também razões válidas para temer a morte quando se pensa em suas conseqüências com relações a outros seres conscientes, como exemplo, imagine um pai de família com vários dependentes de seu trabalho como ele poderia não temer a morte só porque egoisticamente ele não sentiria nada? E quanto àqueles que dependiam dele e sofreriam várias sensações muito desagradáveis? Epicuro parece não se importar com o que acontece com os seus semelhantes e se preocupa assim apenas a felicidade individual, parecendo esquecer que nenhum homem é ilha como dizia Teilhard de Chardin.
Para Epicuro o não-viver não é um mal e o desejo de imortalidade é um desejo frívolo e irrealizável, quando a ser irrealizável, pelo menos por enquanto, é mesmo, porem quando ao desejo ele pode ter dito ser frívolo justamente por ser irrealizável, poderíamos tentar perguntar a ele, se não tivesse morrido, o que acha desse desejo se fosse realizável.
Tentando responder por ele, o próprio Epicuro escreveu “Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver”, se isso é verdade então porque não viver para sempre? E se for possível, apenas através do desejo é que alguém desenvolvera o método para tal. Dessa forma, não podemos mais dizer que o desejo da imortalidade seja frívolo, pois não há nada de terrível na vida para querer deixar de viver também.
Quando a morte ser um processo natural inevitável, argumentamos: de fato é, até agora, mas quantas coisas não interferimos na processo natural e nos beneficiamos dela? E de todas essas interferências, se podemos ajudar a causar a fecundação de uma nova vida, ou seja, interferir em seu inicio, porque não interferir em seu fim?
Terminando, essa ideia de que a morte nunca irá nos atingir pode ser uma fuga, uma maneira de não a pensar, não pensar em suas conseqüências, não pensar no que deixará de ser vivido, justamente para não afetar nossa tranqüilidade, um desejo necessário, segundo Epicuro, e assim não afetar nossa felicidade.
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